Havia caçadores que passavam o dia todo na floresta, e até a noite, e não conseguiam capturar nada — nem uma cutia, nem outro bicho qualquer. Era como eles diziam: tem o dia da caça e o dia do caçador, mas com Seu Manuel era diferente: para ele todo dia era dia de caçar.
Mas tinha um segredo para tudo isso. E sabe qual era o motivo de tanta sorte? Ele tinha amizade com a Caipora. Para quem não sabe, a Caipora é a dona da caça, dos animais e da mata. Segundo a lenda, ela tem aparência de índia, com cabelos longos e pretos, anda de tanga, assobia, gosta de fumo e castiga os caçadores que caçam sem necessidade, dando chicotadas neles. Ela também tem poderes: aparece e desaparece quando quer e, segundo contam, pode também se transformar em qualquer animal da mata. E faz muito mais.
Seu Manuel, sempre que entrava na mata, levava fumo para a Caipora fumar; ela adora fumo e até mesmo cigarro de palha. Bastava apenas colocar o fumo em qualquer lugar e avisar que ela aparecia e pegava. A Caipora também gosta de caldo, podendo ser de qualque tipo, de mototó, por exemplo, mas sem nenhuma pitada de pimenta, caso tenha, ela fica furiosa e ameaça o caçador. Ele fazia isso com frequência e, em troca, ela lhe dava uma caça, fazendo com que o animal mais brabo que existisse ficasse mansinho para facilitar a caçada.
Até que um dia, Seu Manuel saiu para caçar e quando entrou na mata percebeu que tinha esquecido o fumo dela:
— Vixe! Esqueci o fumo da nossa amiga — disse Seu Manuel.
Logo em seguida ouviu um assobio fino e comprido; em cima duma árvore, sentada em um galho de jatobá, a Caipora apareceu e foi logo perguntando:
— Cadê meu fumo que você não trouxe? Sempre traz e hoje esqueceu por quê?
Seu Manuel explicou:
— Pois é. Vá me desculpando. É que estou com a cabeça cheia de problemas e acabei esquecendo seu fumo. Mas foi só essa vez.
— Dessa vez vou te perdoar. Mas não esqueça de novo. E quando vier, traga um caldo também. Que vou lhe dar uma caça a mais. Quero um caldo sem pimenta, pois odeio! Pimenta me faz um mal danado! — pediu a Caipora.
— Trago sim. Vou fazer um caldo de mocotó bem caprichado e arrumar logo um rolo de fumo pra você — disse Seu Manuel.
E, desde então, sempre que ia caçar no mato, Seu Manuel levava fumo e caldo para a Caipora. Com o tempo, os dois foram se acostumando um com o outro; a amizade foi crescendo e, então, passaram a namorar.
Isso mesmo: a Caipora e Seu Manuel agora eram namorados. Mas ninguém sabia disso, afinal quem ia acreditar nessa história? Caipora é um ser encantado das matas e é pior que bicho brabo, não aparece para qualquer um não. Mas segundo as pessoas que contavam essa história, a causo foi real. Os dois passavam o dia nos matos, conversando, fumando e fazendo outras coisas.
Mas Seu Manuel sempre precisava ir embora e, toda vez que partia, a Caipora dizia:
— Volte amanhã e não esqueça do caldo… sem pimenta!
— Volto sim! Pode me esperar — dizia Seu Manuel.
Mas acontece que a mulher de Seu Manuel estava ficando desconfiada com tanto caldo que ele preparava e levava pro mato. Ele sempre dava uma desculpa que era pra ele tomar. Mas ela não acreditava muito nessa história. Até que um dia ela o seguiu sem ele perceber.
Ele caminhou, entrou na floresta, e a mulher vinha atrás, caminhando na ponta do pé, tomando todo cuidado para Seu Manuel não perceber. Quando ele chegou numa maloca, no meio da mata, ela se escondeu atrás de um pé de pequi e ficou olhando lá de longe cada detalhe que seu marido fazia. Ele nem desconfiou que a mulher estava escondida.
Então ele assobiou e logo a Caipora apareceu:
— Trouxe meu fumo?
— Sim. E também o seu caldo.
Nesse momento, a mulher de Seu Manuel, que estava vendo e escutando tudo, ficou surpresa:
— Então é pra Caboclinha — nome popular da Caipora — que ele tá trazendo o caldo que sempre pede pra eu fazer. Esses dois tão é com muruca… ah, mas ele vai me…
Continuou escondida olhando os dois.
Seu Manuel e a Caipora passaram um bom tempo conversando, até que deu a hora dele ir embora. Ela deu uma caça pra ele. E disse:
— Volte daqui a dois dias e traga mais fumo. E não esqueça: sempre que trouxer o caldo, não bote pimenta.
A mulher escondida, escutou tudo e teve uma boa ideia. Foi embora na frente e ficou esperando o homem em casa, fingindo como se não tivesse sabendo de nada:
— Já chegou? Como foi a caça? Trouxe algum bicho?
— Trouxe esse porco-do-mato. Depois prepara ele pra fazer a noite. Só vou pro mato daqui a dois dias.
— Explicou Seu Manuel.
Então os dias se passaram, e a mulher continuou agindo normalmente. No dia em que ele saiu para ir caçar novamente, pediu com antecedência que ela fizesse o caldo de mocotó bem caprichado. Ela fez, caprichou, e, na hora em que ele estava perto de sair, derramou dentro do caldo um vidro inteiro de molho de pimenta, dos mais fortes, e misturou tudo. Embrulhou a panela em um pano e deu dois nós. O homem nem percebeu nada.
Pegou suas coisas e seguiu para o mato. Como sempre, ao chegar, assobiou para chamar a Caipora. Um vento forte soprou, e um assobio finíssimo ecoou pela mata, em resposta. Ela apareceu sentada em um tronco seco, bonita, com um olhar misterioso.
Conversa vai, conversa vem, o tempo passou. A Caipora então pegou a panela, desamarrou e foi provar o caldo, que tava um horror de tanta pimenta. Assim que ela botou na boca, foi ficando toda vermelha, os olhos arregalaram! Ela deu um grito altíssimo, arremessou a panela longe com caldo e tudo, estava muito furiosa:
— Você botou pimenta no caldo! Eu disse que não botasse! Botou de propósito!
— Eu não botei pimenta no caldo! Como assim?! — disse Seu Manuel.
Por mais que ele jurasse por tudo que não foi ele e pedisse que ela não ficasse brava, não adiantava: a Caipora tava uma fera! Começou então uma ventania de arrancar toco.
— Pedi pra não botar pimenta, e você botou! Me enganou! Uuuáááá! — gritava, enfurecida, a Caipora.
Assustado, o homem meteu o pé e saiu correndo que nem bicho acuado. De nada adiantou: a Caipora saiu em disparada atrás dele, com um chicote açoitando-o.
Seu Manuel desceu a serra inteira aos gritos, pedindo ajuda.
Quem o via correndo achava que o homem estava ficando maluco, pois não viam a Caipora; como disse antes, ela pode ficar invisível e só aparece quando quer.
Viam apenas o coitado do Seu Manuel, agoniado com as chicotadas que a Caipora dava. Quem mandou ele ter feito o que fez!
A sua mulher de Seu Manuel estava na porta de casa, quando ouviu os gritos dele se aproximando:
— Socorro! Socorro! Não fui eu! — gritava ele desesperado.
A Caipora veio deixar ele em casa. Dava até para escutar os barulhos das chicotadas que ela dava: lept! Lept!
Quando chegou na porta de casa, ele levou um tropicão e caiu na calçada. A Caipora foi embora.
Aí a mulher disse:
— Isso é pra você aprender a não mais mentir. Tava levando o caldo que eu fazia era pra Cabloquinha!
Depois da surra que levou da Caipora, Seu Manuel nunca mais botou os pés na mata, muito menos voltou a caçar. Pediu perdão para a mulher e desde então, passaram a viver felizes pos longos anos.
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