O Homem que Vendeu uma Galinha pro Diabo

Vou contar a história de um homem que queria ser rico, mas muito rico. Queria ter muito dinheiro, fortuna e mansão; e, para isso, ele era capaz de tudo, até de fazer um acordo com o bicho dos pés de cabra — ele mesmo: o Tinhoso, o Diabo.

Então, ele procurou uma velha rezadeira que morava perto duma ponte, a Dona Dinina, muito conhecida por todos. Velha mais sabida que essa não existia. Sabia de todas as simpatias, rezas e remédios para tudo que fosse problema.

Criança com quebranto? Pessoa com mau-olhado? Enfeitiçado? Era só procurar a Dona Dinina, que ela tirava na hora.

Dor de dente, dor no espinhaço, nas costas, na cabeça, na barriga, nas pernas... Aonde quer que fosse, a velha tinha a meizinha certa. Moça querendo se casar, rapaz velho querendo arrumar uma mulher, Dona Dinina tinha a solução. Tudo a velha resolvia!

O homem chegou na casa da Dona Dinina e disse pra ela que queria ficar rico, ter muito dinheiro, mulheres bonitas e tudo mais, e que seria capaz de fazer tudo para conseguir isso. Estava cansado dessa vida de pobre, de trabalhar, trabalhar e não ter nada.
 
Dona Dinina foi logo dizendo:

— Óia, pra isso que você quer, tem que ir falar com o bicho, com o “cão”, meia-noite lá na encruzilhada. Tem que ir sozinho e num ter medo de nada. O sinhô vai levar uma galinha preta e, quando ele aparecer — porque vai aparecer — aí ele vai perguntar quanto é a galinha. Aí o sinhô diz que é oitenta real. Ele vai achar caro e vai fazer de tudo pra você vender por um preço menor. Não venda! Só dê a galinha por oitenta real.

— E se, por acaso, eu vender pelo preço que ele quer? — perguntou o homem.

— Aí o bicho vai embora com a galinha, num te dá nada, nem um centavo, e ainda vem te buscar depois — explicou Dona Dinina.

— Pois eu vou! Quero vender a galinha pro bicho! — disse o homem, todo empolgado.

Pegou a galinha, amarrou as pernas pra ela não fugir, botou debaixo do braço e foi embora esperar dar meia-noite lá na encruzilhada.

O bicho apareceu mesmo!

Estava o homem na encruzilhada, andando pra lá e pra cá, olhando pra um lado e pro outro, todo ansioso. Até que deu meia-noite em ponto, e lá vinha o bicho, caminhando todo faceiro, elegante, vestido com uma longa capa preta, usando botas pretas que até refletiam o brilho da lua. A ponta da bota parecia um alfinete de tão fina. Trazia uma bengala cor de ouro e vinha caminhando lentamente, sem pressa; parecia um senhor educado.

Chegou próximo ao homem e, com um olhar cheio de malícia, foi logo dizendo:

— Boa noite, camarada. Ouvi dizer que trouxe uma galinha pra me vender.

O homem respondeu:

— Boa noite, sinhô! Sim, é esta aqui! Quero lhe vender por oitenta real.

O Diabo, passando a mão no bigode, respondeu:

— Vixe, que galinha cara! Nunca vi uma nesse valor, e costumo comprar por aí de vez em quando. Deixe por vinte real! Tô precisando muito e quero levar pra cozinhar amanhã à noite. Mas só pago trinta!

O homem disse:

— Trinta real num dá não, sinhô. Só vendo por oitenta real, nada mais, nada menos.

O bicho pediu mais uma vez:

— Deixe essa galinha por trinta! Tenho que levar ela hoje.

E o rapaz, sempre firme:

— Por esse valor não posso vender, desculpe. Só por oitenta.

Aí o bicho foi criando raiva, ficando afobado:

— Me dê a galinha por trinta real, rapaz! Eu num vim dar viagem perdida não, eu quero a galinha! Me dê logo!

— Só dou por oitenta, só oitenta! Se quiser por esse valor, pode levar, mas o dinheiro primeiro! — disse o homem, segurando firme a galinha.

Aí o bicho disse, já fungando, ciscando o chão igual um boi brabo:

— Me dê a galinha! Quero ela por trinta e já tenho que ir embora! Me dê logo!

O homem, sem medo, manteve a sua palavra:

— O preço da galinha é oitenta real.

O bicho já muito afobado, batia os pés no chão, soltava fumaça pelas ventas e fazia um barulho assustador. Um cheiro forte tomou conta do lugar e a poeira subia enquanto ele ciscava o chão, impaciente:

— Me dê a galinha por trinta real agora!

O homem, já com um pouco de medo, não mudou de palavra de jeito nenhum:
— Só vendo por oitenta!

Foi aí que o bicho partiu enfurecido para cima do homem! Tacou a bengala no espinhaço do coitado, deu coices, arrastou o cabra e jogou lá longe... pisou em cima, mordeu igual a um cachorro com raiva, e o cabra sempre firme:

— Só dou a galinha por oitenta real!

E o Tinhoso:

— Vai me dar a galinha ou não vai?!

Laçou o cangote do cabra com o rabo e jogou ele igual um pião; deu chifrada, arrastou de todo jeito, e o homem segurando firme a galinha:

— O preço da galinha é oitenta real, sinhô!

E foi nisso por mais de horas, até que um galo cantou lá longe. O dia estava perto de amanhecer e o bicho, já desesperado e vendo que não tinha jeito-que o homem não ia dar a galinha pelo valor que ele queria- então gritou:

— Aqui seus oitenta! Me dar logo a galinha!

E jogou o dinheiro perto do homem. Ele pegou, contou e viu que era oitenta real certinho. Jogou a coitada da galinha pro bicho pegar; não entregou na mão dele, não! O Tinhoso rapidamente agarrou a galinha, saiu correndo, dando risadas, e sumiu na escuridão com uma catinga de fazer urubu correr.

O homem, já todo sujo da briga que teve, saiu feliz com o dinheiro. Mas apenas com oitenta reais ele estaria rico? Não! Ninguém fica rico com oitenta reais. A questão era que, de acordo com o que a velha rezadeira explicou, era um dinheiro mágico. Quem o tivesse, tinha que guardar e não gastar de maneira nenhuma, pois, segundo a tradição, todo dinheiro que fosse colocado junto ia se multiplicando. E assim aconteceu.

O homem ficou muito rico. Levou uma bela de uma peia, é verdade, mas no final valeu a pena!


Glossário da Linguagem Popular

Afobado: se diz quando alguém está com com raiva, zangado(a).

Espinhaço: no corpo humano, é usado como sinônimo de coluna vertebral ou simplesmente das costas.

Fungando: aspirar ou soltar o ar pelo nariz de maneira ofegante, geralmente quando uma pessoa está muito cansada ou com raiva.

Meizinha: se usa para referi-se a remedios caseiros como chás feitos de plantas ou raizes.

Sinhô- senhor (Termo popular usado em narrativas orais)


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