O velho Valente e o Lobisomem

Este é um causo popular inspirado em histórias contadas de boca em boca, onde o exagero e o humor fazem parte da narrativa. A história a seguir é uma obra de ficção, criada para entreter e preservar a tradição oral.

Havia, em um povoado, um velho que tinha fama de ser valente, afobado e sem medo de ninguém. Não tinha medo de assombração, nem de onça, nem de guaxinim, nem de caipora, nem de raposa choca, nem de lobisomem! Nem de nada que quisesse lhe assustar. O velho era a molesta de valente!

Um dia, ele estava na calçada de sua casa, fumando o cachimbo, com uma cara de pouca conversa, quando chegou um conhecido chamado Tonho-perna-seca. Ele tinha esse apelido por causa das suas pernas finas, parecidas com as de um sabiá desnutrido. Além disso, era pálido, de dentes amarelados e vivia  com um mau hálito de fazer qualquer um correr.

Segundo boatos do povoado, Tonho-perna-seca virava lobisomem nas noites de lua cheia. Ele mesmo dizia que virava no bicho e saía correndo pelo mundo, assustando quem encontrava e aprontando todo tipo de confusão pelo caminho durante a noite.

— Boa tarde, sinhô! — disse Tonho.

— E o que é que tem de boa? — respondeu o velho, todo ignorante.

— É que eu tou passando só pra aconselhar o sinhô a não ficar andando sozinho nessas estradas em certas horas da noite.

— E o que é que tem? — perguntou o velho.

— O sinhô sabe que eu viro lobisomem. Quando isso acontece, fico com a cabeça ruim e acabo assustando quem aparece pelo caminho. Dias atrás eu vinha pela estrada, quando vi o sinhô atravessando a porteira. Por pouco não lhe fiz mal. Tive que me controlar. Tome mais cuidado e não fique caminhando por aí tarde da noite — disse Tonho.

— Eu ando a hora que eu quiser, de dia ou de noite! Ora! — respondeu o velho, cheio de coragem. — E quem quiser me pôr medo, tenho o remédio certo!

— Pois tá bom. Depois não diga que eu não avisei — disse Tonho, saindo embora com a cabeça baixa.

Passaram-se os dias, e era noite de lua cheia. Como já tinha sido dito, Tonho-perna-seca saiu de casa logo que anoiteceu, como era sua sina, e virou lobisomem. Saiu correndo pelas estradas desertas, causando bagunça por onde andava: passava em frente às casas rosnando, ia aos galinheiros comer titica das galinhas, espantava os cachorros e virava a madrugada fazendo arruaça.

Até que, passando por uma dessas estradas, sabe quem o bicho encontrou? Sim, o velho. E ficaram frente a frente.

O velho, todo afoito, já foi logo gritando:

— Pode vir, pode vir, que eu não tenho medo, não!

O lobisomem respondeu com um uivo comprido:

— Uhhhuuuuu! Auuu! Auuu!

Em seguida, correu em direção ao velho, e os dois se atracaram na maior briga. Nisso, o lobisomem papou o velho. Isso mesmo! Depois disso, o bicho seguiu o caminho com o bucho cheio, que nem quis mais comer nada durante toda a noite.

No outro dia, já de manhã, Tonho amanheceu com a barriga toda inchada. Mal podia andar; parecia que a barriga ia explodir. E o velho, lá dentro, gritava:

— Me tira daqui! Quero sair! Quero sair! Ora, se eu lhe pego…

E Tonho-perna-seca não aguentava mais:

— Ai, minha barriga! Ai, minha barriga! Pra quê que eu fui jantar esse véi…

E o velho continuava lá dentro:

— Quero sair! Me tira! Quero sair!

Sem aguentar mais, Tonho foi até a casa da rezadeira Dona Dinina. Foi pedir ajuda a ela.

— Tu já anda comendo porcarias de novo, não é, Tonho? Comeu o quê de noite? Ou é verme? — perguntou Dona Dinina.

— Ai, ai, minha barriga! Tava virado no bicho e papei o véi lá da vila! Agora ele quer sair de qualquer jeito. Tou morrendo de gastura! Me arrume logo um remédio pra eu miorá! — pediu Tonho.

E o velho:

— Deixa eu sair daqui! Tou avisando!

— Pois espere só um tiquinho, que eu vou fazer um chá pra você beber todinho — disse Dona Dinina.

Ela preparou um chá misterioso e deu para Tonho beber. Ele bebeu tudo. Quase de imediato, o remédio começou a fazer efeito, e a barriga começou a crescer. Cresceu, cresceu, cresceu e... pou!

Foi um estouro muito grande que deu para ouvir de longe! O velho foi arremessado tão alto que parecia voar e foi parar lá do outro lado da vila, vivinho.

— Coitado desse rapaz! — lamentou Dona Dinina.

Depois, ela juntou tudo o que tinha saído do corpo de Tonho, ajeitou tudo nos seus devidos lugares e fechou a barriga dele.

— Pronto! Costurei tudinho. Agora veja se não sai comendo porcarias de novo durante a noite — disse a velha rezadeira.

Desde aquele dia, Tonho-perna-seca não saiu mais comendo qualquer coisa que via em seu caminho quando saía à noite, mas continuava virando lobisomem e assombrando por onde passava.

Se gostou desse causo, deixe seu comentário aqui abaixo e conheça outras histórias que escrevi neste blog.

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