As Duas Moças e a Velha do Mato

Eram duas moças. Jovens, de uma beleza simples, sem luxos. As coitadas não conheciam produtos de beleza, que o dinheiro não dava para essas vaidades; mesmo assim, tinham o seu encanto. Uma era magra, de pernas finas que pareciam dois gravetos e tinha apenas dois dentes na boca. A outra era morena, cabelos pretos e compridos, era matuta que só ela. Se via um homem chegando, corria com vergonha e se escondia no mato. Mas, para o trabalho, não tinha igual: não reclamavam de serviço algum, nem se trocavam por homem nenhum.

Gostavam mesmo era de pegar um saco e entrar no mato, subir a serra e procurar pequi. Sim, piqui, para vender lá na feirinha da cidade, e pra comer também. Pequi é o fruto do pequizeiro, muito usado na comida. Na época dos pequi, era o que elas mais faziam: catavam tudo para vender. Passavam o dia todo dentro do mato. Levavam outro saco com farinha e rapadura pra comer quando ficassem com fome. Elas também fumavam, só andavam com um pacote de fumo de rolo no bolso. Fumavam igual uma Caipora, pois é...

Quando encontravam um pé cheio de pequi, elas catavam os que estavam no chão e faziam um monte. Não pegavam os que estavam na árvore, senão eles ficam difíceis de abrir e com gosto amargo, aí não presta pra comer; tem que esperar ele cair da galha sozinho. Elas juntavam tudo embaixo de uma árvore, depois iam descansar lá perto.

Acontece que, certa vez, elas resolveram acender um fogo para assar pequi. Sim, também se pode assar pequi na brasa, mas sem a casca. Então, o tempo passou e estavam as duas lá, conversando, fumando e comendo pequi com farinha, não tinha mais nenhuma pessoa por perto, só mato e bicho. Era meio-dia, quando elas escutaram umas pisadas nas folhas secas, vindo de dentro do mato. Eita! Será que era uma onça?

As duas já estavam com os zóios arregalados, prontas para correr e subir numa árvore. Mas onça não era! De repente, elas veem surgindo uma velha desconhecida: morena, magra, alta, de cabelos assanhados parecendo que tinham anos sem pentear. Estava com os pés descalços, com uma cara que não estava pra conversa e também fumando um cachimbo. A fumaça tomava de conta de tudo.

Ela foi chegando, caminhando com passos faceiros. Passou perto das moças, não falou nada, muito menos olhou para elas, de maneira alguma. As duas moças já estavam assombradas. Aí uma delas disse:

​— Bom dia, dona Maria!

E cadê que a velha respondeu? Não disse nada! Vixe, já dava pra ver que não era uma pessoa comum. Eu mesmo já teria corrido!

Pois bem, a velha misteriosa caminhou até onde estava o fogo aceso, ficou de cócoras, meteu a mão no meio das brasas, pegou uma e pôs em seu cachimbo. Isso mesmo: pegou com a mão e não se queimou! Aí, dessa vez, as moças quase correram de medo. Que pessoa pega numa brasa acesa com a mão, sem se queimar? Era assombração mesmo!

E as duas só de butuca, observando, pálidas de medo. Como se não bastasse a velha ter pego a brasa com a mão, ela espatifou o fogo inteiro! Não ficou uma brasa acesa. Depois murmurou algo que não deu pra entender nada​— parecia reclamar de alguma coisa. Levantou-se, saiu em direção ao mato fechado e sumiu.

As duas moças se levantaram e, caminhando desconfiadas, foram olhar o que a velha tinha feito no fogo. E, quando viram... não tinha uma brasa acesa! Tudo apagado, só carvão frio, parecendo que tinha chovido em cima.

Neste momento, as duas tiveram a certeza que aquela velha era coisa do mato, coisa da Caipora, que não gostou do fogo que elas fizeram e resolveu aparecer para botar medo. As duas resolveram ir embora o quanto antes! Recolheram os piquis, jogaram o saco nas costas e... cambitos pra que te quero! Ha! Ha! Ha! Foram embora!

Minha opinião é que eu acho que a véia que apareceu realmente foi a Caipora. Ela não gosta de fogo, pois incendeia os matos e destrói tudo. As matas têm seus mistérios. Pode ter certeza disso. E você, acha também que a senhora era uma pessoa ou uma Caipora?

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