Este conto popular narra a história de dois amigos: um é preguiçoso, mas sortudo; o outro, invejoso e ganancioso. No final da história acontece algo impressionante e mágico! Veja quem vai se dar bem e quem vai levar a pior!
Dizem que existia um homem conhecido como Raimundo. Ele costumava passar o dia deitado numa rede armada no alpendre da sua casa, não tinha pressa para fazer nada, muito menos trabalhar. Ele mesmo vivia dizendo: "o que Deus tem pra mim, ele dá na minha mão. Pra quê trabalhar tanto? Quando eu morrer não levo nada mesmo." E continuava na sua rede se balançando pra lá e pra cá...
Mas o que ele tinha mesmo era sorte. Muita sorte! Tudo que ia fazer dava certo. Se fosse pescar no rio, nem se esforçava para jogar o anzol, e os peixes já pulavam pra fora da água. Quando ia caçar, a mesma coisa: parecia que o animal saía do mato e vinha para os pés dele.
Essa sorte toda que o Raimundo tinha incomodava o seu amigo, o Ciço, que de vez em quando passava em frente à sua casa e, ao vê-lo deitado na rede, já ficava irritado. Na verdade, o Ciço era um invejoso; o que mais sabia fazer era ficar de olho na vida do Raimundo para ver o que ele andava fazendo. O Ciço não se conformava com a vida que tinha: trabalhava muito e continuava sem dinheiro.
— E o trabalho, Raimundo? — perguntou Ciço. — Vai passar o dia todo dormindo nessa rede? Deixe de preguiça, homem, vá arrumar um serviço!
Raimundo, com uma voz de sono, respondeu:
— Eu não. Pra quê essa pressa toda? Sou filho de Deus, e o que ele tiver pra mim, dá na minha mão. Não precisa eu tá correndo não. E tá tão bonzinho aqui, que vou dormir até mais tarde.
Aí disse o Ciço:
— Mas Deus disse: "Faça por onde, que eu te ajudarei".
— E eu estou fazendo. Estou aqui na minha rede esperando — disse Raimundo, se espreguiçando.
Irritado, Ciço foi embora:
— Isso é doença de preguiça! Deixa eu ir, senão passa pra mim!
No caminho, Ciço ia pensando:
"Além de preguiçoso, é folgado! Mas um dia eu ainda apronto uma com ele. Aí ele vai criar coragem e sair daquela pra trabalhar."
O sonho com o anjo
Até que um dia, Ciço ia passando e Raimundo, deitado em sua rede, chamou:
— Vem aqui cumpadre! Tenho uma coisa pra te contar.
— Contar o quê? — perguntou Ciço — Se for conversa besta, nem vou perder meu tempo. Você já tá com a vida ganha e eu tenho que trabalhar!
— Tu acredita em sonhos? — Perguntou Raimundo.
— Só se eu sonhar com Deus me dando um saco de ouro e, quando acordar, o saco tiver do meu lado — respondeu Ciço.
Aí Raimundo começou a contar:
— É que essa noite eu tive um sonho...
— Tu deve ter sonhos toda hora, tu não sai dessa rede — interrompeu Ciço.
— Mas esse sonho foi arretado — continuou Raimundo. — foi um sonho com anjo! Foi assim: eu estava aqui em minha rede quando escutei uma voz me chamando. Olhei e vi um clarão: era um anjo! Ele veio voando, descendo do céu. Aí me disse:
"Raimundo! Oh, Raimundo, vim te dizer que tu vais ficar rico, muito rico. Mas pra isso, tu vai ter que cavar no pé da jaqueira que fica no fundo do teu quintal. Lá tem uma botija cheia de moedas de ouro."
— Aí eu perguntei: "Tá enterrada muito fundo? Porque se tiver, o sinhô vai me desculpar, mas não vai precisar. Não quero ser rico, já estou satisfeito com a minha vidinha." Aí o anjo disse: "Deixa de ser preguiçoso, Raimundo! O tesouro tá lá te esperando. Vai cavar!" — e sumiu!
Ciço, meio pensativo, falou:
— Ôxe! Que sonho mais esquisito. Quem é que hoje em dia tem dinheiro enterrado no quintal?
— Pois é... você tem toda a razão cumpadre! — disse Raimundo.
E Ciço, já indo embora:
— Eu mesmo não acredito nessas coisas! E já vou trabalhar, que já tou atrasado.
Mas Ciço começou a pensar: "Rapaz... e se o sonho for verdade mesmo? E se lá na jaqueira tiver o tal do tesouro enterrado? Só vou saber indo lá..."
A Botija
Ciço aproveitou que, depois do almoço, Raimundo tinha o costume de tirar um cochilo, pegou uma enxada e uma pá e foi em silêncio até o quintal cavar no pé da jaqueira grande, igual o anjo explicou. Começou a cavar com todo cuidado para não fazer barulho. Cavou, cavou e teng! Bateu em alguma coisa! Quando olhou... era a botija!
— Achei! Achei a botija! Era verdade mesmo! O ouro é todo meu! — comemorou Ciço, falando baixo para Raimundo não escutar.
Todo feliz, ele abriu a botija, mas... quando foi olhar... saiu foi um enxame de marimbondos dos mais bravos. Eram muitos! E começaram a picar o Ciço, que largou a botija e saiu correndo, gritando:
— Ai, ai, sai! Sai!
Quando os marimbondos se aquietaram e voltaram para dentro da botija, Ciço voltou, botou a tampa e os prendeu.
— Ai, ai! Não tem ouro coisa alguma! Ah, mas aquele folgado vai me pagar! Ai! — disse Ciço, reclamando da dor das picadas.
Foi até o Raimundo, que estava deitado na rede, e disse:
— Aqui está o tesouro que encontrei lá no pé da jaqueira. Fui lá, cavei e encontrei!
— Então era verdade mesmo o que o anjo falou — disse Raimundo.
E Ciço:
— Sim! E ela é tua, pega!
Arremessou a botija em direção à rede e saiu em disparada, achando que os marimbondos iam sair e picar o Raimundo. Mas a botija era encantada e, quando bateu na parede, quebrou e caiu um monte de ouro dentro da rede. Eram muitas moedas de ouro!
— Não disse? O que Deus tem pra mim, ele dá na minha mão!
E continuou sua soneca.
Gostou da história do Raimundo (preguiçoso e sortudo) e do Ciço (ganancioso e invejoso)? Conhece um causo parecido ou outra história interessante? Se quiser pode nos enviar que posto aqui.