Vou contar uma história de lobisomem que, segundo os antigos, foi um causo real. Aconteceu aqui, no nordeste. Foi assim:
Em uma casa, viviam uma mulher, seu marido e o filho de um ano. Certa vez, a mulher chamou o marido pra irem à casa da mãe dela, que ficava a uma certa distância. Iam sempre a noite, como era de costume. O caminho a ser percorrido passava no meio do mato. Era noite de lua cheia e estava na quaresma; dizem que coisas assombrosas gostam de aparecer nessa época. Ele não queria ir, mas ela insistiu, então ele foi. Era começo da noite.
Quando chegaram à casa dos pais da mulher, ficaram conversando até certa hora. Quando iam embora, a mãe da moça disse:
— Já tá meio tarde. Durmam aqui, de manhã vocês vão.
O marido não aceitou e seguiram caminho. Faltava pouco para a meia-noite, quando eles pararam no meio da estrada. O homem disse que havia esquecido não sei o quê e precisava voltar, que seria rápido. Uma conversa esquisita. A mulher estranhou. Ele pediu que ela fosse caminhando, que logo a acompanhava. Ela resolveu esperar.
O lobisomem apareceu
O tempo passou e o homem não chegava. Então, a mulher começou a sentir um mau cheiro forte e a escutar uns gemidos que vinham na direção do caminho. Achando que era o marido, passou a chamar pelo o nome dele. De repente, surgiu lá na frente um bicho grande e escuro, quase do tamanho de um jumento, magro, com os olhos brilhando, parecendo duas luzes. Tinha aparência de um cachorrro. Vinha se aproximando! Era um lobisomem!
Muito assustada, a mulher correu em disparada e se embrenhou no mato, gritando desesperada. O bicho vinha atrás, querendo alcançá-la para devorar o filho dela, pois ainda não era batizado; e lobisomem gosta de criança pagã. A mulher corria incansável, se arranhando toda nos matos secos. Mesmo com a criança nos braços, conseguiu subir às pressas em uma árvore, enquanto o bicho ficou embaixo, dando pulos para alcançá-los; não conseguiu subir, mas rasgou com os dentes parte do vestido que ela usava.
O lobisomem fazia de tudo para conseguir alcançar a mulher e a criança: arranhava e mordia ferozmente o tronco da árvore, rosnava e fazia barulhos assustadores e a coitada, aos prantos, segurava firme os galhos para não cair. Gritava para alguém vir ajudá-la, mas era em vão, pois não havia moradores nas redondezas.
E foi assim, até que o dia vinha amanhecendo e o lobisomem precisava se transformar em homem novamente. E dizem que tem que ser no mesmo local que ele se transformou no bicho. Ele saiu correndo e sumiu. A mulher, percebendo que ele não ia mais voltar, desceu da árvore e foi para casa. Assim que ela chegou, não demorou muito e o homem apareceu, todo desconfiado, sujo e inventando mil e uma desculpas. A mulher contou tudo que tinha acontecido e por muita sorte, o lobisomem não pegou ela e o filho. O homem, cansado, for dormir.
Enquanto o marido dormia, a mulher, muito cismada, foi vê-lo de perto. Ele roncava de boca aberta e ela teve um grande susto: entre os dentes amarelados dele, havia fiapos de tecido da mesma cor do vestido que ela tinha usado naquela noite. O lobisomem era ele! Ela havia se casado com um lobisomem e não sabia!Ninguém sabe o que aconteceu com o casal depois. Mas eu acredito que ela não continuou morando com ele na mesma casa. Afinal, quem é a pessoa que mora com alguém que vira lobisomem nas noites de lua cheia?
Gostou da história? Este foi um causo que ouvi as pessoas contando aqui onde moro. Achei interessando e resolvi compartilhar com você e outras pessoas, assim a história nunca será esquecida.

