O Causo do Queijo: Uma História de Esperteza

Em um barco sobre o rio Amazonas, viajavam um estudante e um caboclo. O jovem estava fazendo umas pesquisas e o caboclo ia controlando o barco. No caminho, ao passar em um povoado, encontraram um padre que ia para o mesmo destino, então o estudante resolveu lhe dar uma carona.

A viagem ia durar três dias. Passando novamente em outra vila, eles pararam. O estudante precisou fazer lá não sei o quê; fazia parte da sua pesquisa. Antes de voltarem para o barco, eles ganharam um queijo do pessoal da vila. Seguiram a viagem.

À noite, enquanto eles conversavam, o caboclo perguntou: 

— E o queijo, ocês num vão comer não?

— Verdade! Já estava esquecido. Então vamos comê-lo — disse o padre.

Mas o queijo era pequeno. Se fosse dividido para os três, não ia dar nem para sentir o gosto.

O estudante disse:

— O queijo parece ser delicioso! Mas é pouco. Se a gente dividir, só vai dar um pedacinho pra cada. Nem compensa! 

— Mas está escrito que Jesus disse: "Dividam o pão" — explicou o padre.

— Sim, seu padre. Mas ele estava falando de pão, e não de queijo — disse o jovem.

E o matuto, meio por fora da conversa:

— Se for por mim, ocês pode fica despreocupado, não faço questão de queijo não.

Foi aí que o padre teve uma ideia:

— Como o queijo é pouco para ser dividido pra três, fazemos assim: vamos dormir e amanhã pela manhã, cada um diz o sonho que teve. O que tiver o sonho mais bonito é o que ficará com o queijo.

E assim foi. Todos foram dormir. Mas acontece que durante a madrugada o matuto acordou, foi até a cozinha sem fazer barulho e comeu todo o queijo, não deixou um pedacinho sequer. Satisfeito, voltou pra rede e dormiu.

Pela manhã, os três estavam reunidos na cozinha. Então, o padre, querendo ser esperto e convencer os outros de que seu sonho seria o mais bonito, recorreu à sua sabedoria religiosa:

— Muito bem, meus irmãos! Eu começo contando. Meu sonho foi assim: sonhei que estava sentado embaixo de uma árvore, fazendo minhas orações, quando escutei uma voz bonita e suave me chamando, "Padre! Padre! A tua hora chegou, vens comigo!" Quando olhei, vi um clarão, entre as nuvens, vinha saindo a mão de Deus... era a coisa mais linda! Eu subi na mão dele e fui direto para o céu.

— Eita que sonho mais bonito seu padre! Chega tou arrupiado! — disse o caboclo.

E o estudante, querendo ser mais esperto, e aproveitando a descrição do padre, começou a dizer seu sonho:

— Realmente o sonho do senhor foi bonito. Mas o meu foi mais. Sonhei que também estava debaixo de uma árvore refletindo sobre a vida. Quando tive a mais bela das visões: vi o senhor subindo para o céu na mão de Deus. Então eu perguntei "Padre, para onde estás indo?" O senhor respondeu "estou indo para o céu, venha também meu jovem!" Aí me pegaste pela mão... nós dois subimos e chegamos em um lugar lindo, cheio de flores e anjos... era o paraíso! Foi quando acordei.

— Vixe! Ocês dois num deve ter nem um pouquinho de pecado. Foram direto pro céu! — disse o caboclo, admirado com o sonho do estudante.

— E você, como foi seu sonho? Conte — pediu o padre ao caboclo.

Então, ele começou a contar:

— Quem dera se eu também tivesse o mesmo sonho do seu padre e do seu menino. Pois eu sonhei que tava aqui em meu barco, quando espiei pro céu e vi ocês dois passando na mão de Deus. Aí eu gritei: "Ei! O queijo! Ocês esqueceram o queijo aqui!" Aí ocês responderam: "não queremos mais queijo não! Já tamos no céu e não precisamos de queijo. Pode comer! Coma o queijo!" Parecia ser tão verdade que eu vim, meio dormindo ainda e comi o queijo todinho! He! He! He!

Então, o padre e o estudante, sem resposta, ficaram calados e seguiram a viagem.

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